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Existencialismo

O olhar que nos faz

O olhar que nos faz

Quantas vezes você já postou algo e ficou de olho no celular esperando a primeira curtida chegar? A cena é banal, mas o mecanismo por trás dela não é. Jean-Paul Charles Aymard Sartre dedicou boa parte de O Ser e o Nada a investigar exatamente esse fenômeno: por que a presença do outro muda tão radicalmente o que sou para mim mesmo. Duas formas de existir Para Sartre, existimos de dois modos irredutíveis. Há o para-si — a consciência como pura liberdade, projeto em aberto, aquilo que nunca coincide totalmente consigo mesma porque está sempre se lançando adiante. E há o para-outro — o modo como existo enquanto objeto na consciência de alguém, fixado numa imagem que não escolhi e não controlo. A tese central é que essas duas dimensões não se somam pacificamente: elas entram em conflito. O exemplo que Sartre](https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Paul_Sartre) utiliza para ilustrar isso é conhecido: alguém espia por uma fechadura, absorvido na cena, puro olhar, sem se pensar como personagem. De repente, ouvem-se passos no corredor. Nesse instante, a experiência se transforma inteiramente — de sujeito absorvido no mundo, essa pessoa passa a ser, na consciência de quem chegou, “o espião”. Nasce a vergonha, e ela é reveladora: não decorre do ato em si, mas do fato de ter sido fixado numa essência por um olhar que não é o seu. É o outro que me dá um “eu” que, até então, eu não tinha — e esse “eu” me escapa por definição. A antecipação do olhar A diferença entre a cena sartreana e a experiência contemporânea das redes sociais está na temporalidade. No exemplo do corredor, o olhar interrompe uma atividade já em curso: primeiro há absorção, depois há objetificação. Nas redes, essa ordem se inverte. O olhar do outro deixa de ser uma interrupção e é condição de possibilidade da própria ação: escolhe-se o ângulo, a legenda, o corte do vídeo, já em função de uma audiência imaginada, antes que qualquer olhar real tenha ocorrido. Isso significa que o para-outro, em vez de suceder o para-si, tende a precedê-lo. Passamos a agir menos a partir de um projeto autônomo e mais a partir da imagem antecipada de como seremos vistos — o que Sartre descreveria como uma inflação do domínio do outro sobre a própria estrutura da ação. Métricas como fixação de essência Curtidas, comentários e seguidores funcionam como indicadores quantificados daquilo que, em Sartre, é sempre qualitativo e instável: a imagem que o outro faz de mim. O risco filosófico aqui tem nome: má-fé (mauvaise foi) — não a mentira dirigida ao outro, mas a mentira que dirijo a mim mesmo ao tratar uma dessas imagens fixas como se fosse minha essência definitiva. Sartre insiste que a consciência é sempre mais do que qualquer determinação que se lhe atribua; acreditar o contrário é abdicar da própria liberdade em nome de uma segurança ontológica ilusória. O conflito como estrutura, não como exceção "O inferno são os outros", frase de Entre Quatro Paredes que resume bem a tese de O Ser e o Nada, não é uma condenação da vida em comum, mas a constatação de que toda relação intersubjetiva carrega uma disputa: ou eu objetifico o outro, fixando-o numa imagem, ou sou eu quem é objetificado. Não há síntese estável — apenas alternância. As redes sociais não criam esse conflito; apenas o tornam contínuo, mensurável e simultâneo, multiplicando os olhares que me capturam ao mesmo tempo, cada um recortando uma versão parcial de mim que compete por se tornar a versão pública. Uma saída parcial Sartre não oferece consolo fácil, mas aponta uma direção: a liberdade do outro é irredutível — ele pode sempre olhar de outro modo —, assim como a minha própria consciência sempre excede qualquer imagem fixada dela. A má-fé consiste em esquecer isso, seja aceitando passivamente a imagem que os outros constroem, seja tratando o próprio perfil construído para ser visto como se fosse a totalidade do que se é. A tarefa não é escapar do olhar alheio — isso seria negar a própria condição social —, mas habitar essa tensão sem se entregar inteiramente a nenhum dos polos.